CONJUNTURA E TÁTICA ELEITORAL - RESOLUÇÃO 2026.001
- PSOL BAHIA
- 28 de fev.
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O mundo atravessa uma convergência profunda de crises socioambientais, políticas e econômicas que escancaram a crise estrutural do capitalismo. Diante de seus próprios limites históricos, o sistema intensifica a exploração da classe trabalhadora e aprofunda as opressões de raça e gênero. É nesse terreno de destruição socioambiental e avanço do neofascismo que se fortalece uma extrema direita articulada internacionalmente, que ameaça as frágeis democracias e disputa o rearranjo da ordem mundial em favor de um projeto autoritário e imperialista.
O retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos não é um fato isolado, mas expressão dessa ofensiva global reacionária. Sua vitória se insere em uma situação histórica marcada pelo avanço de forças ultraconservadoras que operam em rede, combinando guerra cultural, neoliberalismo radical e ataque frontal aos direitos sociais e à soberania dos povos. No centro do principal pólo imperialista do planeta, consolidou-se um representante orgânico da extrema direita, disposto a impor uma série de derrotas históricas à classe trabalhadora, aos movimentos populares e às organizações de esquerda em escala internacional, além de atentar contra importantes acordos multilaterais no campo da proteção universal de direitos fundamentais, com medidas que afrontam até a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
A ofensiva imperialista estadunidense não se restringe ao plano interno. Com a escalada das tensões e ameaças em toda a América Latina, Trump resgata as origens do imperialismo ianque, com a intervenção militar na Venezuela e sequestro de Nicolás Maduro, recrudescendo o bloqueio econômico a Cuba, intensificando medidas coercitivas e ultimatos diplomáticos, e promovendo ofensivas políticas contra governos progressistas e soberanos na região, enquanto busca consolidar apoio a forças conservadoras e autoritárias em países como Argentina e El Salvador, incluindo incitações à intervenção militar e bloqueios econômicos que equivalem a uma declaração de guerra econômica e política.
No Oriente Médio, essa mesma engrenagem brutal se materializa no genocídio do povo palestino promovido pelo Estado Sionista de Israel, com o apoio direto dos Estados Unidos e a cumplicidade da União Europeia e de outras potências centrais. A ofensiva militar contra a população da Faixa de Gaza permanece e já resultou na morte de dezenas de milhares de palestinos e palestinas, evidenciando a face mais cruel da extrema direita geopolítica e colonial.
Nossa vizinhança latino-americana é também palco dessa disputa geopolítica e de classe. A Argentina experimenta um choque austero de políticas de mercado que retiram direitos sociais e entregam o patrimônio nacional, servindo como um espelho amargo do que o Brasil teria enfrentado se não tivéssemos derrotado o bolsonarismo. A ofensiva da extrema direita, alimentada por Washington e pelo fundamentalismo do mercado, tenta enterrar de vez as esperanças abertas pelos governos progressistas do ciclo anterior.
Diante desse cenário, o governo Lula iniciou, ainda que tardiamente, uma inflexão ao dialogar com setores mais combativos dos movimentos sociais e recolocar temas estruturais na agenda pública. A recente aprovação da isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, junto a defesa pelo fim da escala 6x1, a tarifa zero e o debate sobre justiça tributária apontam corretamente para a necessidade de disputar quem paga pela crise no Brasil e de sinalizar compromissos concretos com a classe trabalhadora. No entanto, essa mudança permanece insuficiente se não vier acompanhada de uma aposta firme na mobilização popular e na construção de força social organizada. Sem enfrentar os interesses do grande capital e sem ativar a energia transformadora do povo trabalhador, não será possível derrotar de forma duradoura a extrema direita nem avançar em um projeto verdadeiramente popular e soberano para o país.
Cabe destacar, ainda, o acerto da aposta do governo para o enfrentamento ao avanço alarmante dos casos de feminicídio no país, com a reestruturação do Pacto contra o feminicídio, voltado a campanhas de conscientização da sociedade, mas que precisam vir acompanhadas de outras ações estruturantes intersetoriais. No Brasil, apesar da vitória política e eleitoral do presidente Lula em 2022, fundamental para interromper o ciclo neofascista e preservar as liberdades democráticas, a extrema direita mantém forte influência social, institucional e ideológica. A derrota eleitoral do bolsonarismo não significou sua derrota histórica. Enfrentá-lo segue sendo nosso maior desafio estratégico, devendo permanecer no centro da tática. A aposta inicial do governo Lula 3 na conciliação com um Congresso conservador e hegemonizado pelo centrão revelou limites evidentes: produziu vitórias parciais, mas não alterou estruturalmente a correlação de forças, além de coincidir com uma queda significativa de popularidade e com sinais de instabilidade da base parlamentar.
Ainda assim, vivemos um fato histórico relevante, pela primeira vez, líderes golpistas e militares de alta patente foram julgados pela tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. Ver Jair Bolsonaro e seus aliados presos é um passo importante contra a impunidade, mas não podemos esquecer que o bolsonarismo segue vivo, articulado, operando no Congresso Nacional para aprovar projetos de anistia que buscam reabilitar politicamente o campo golpista e se movimentando para retomar fatias importantes do poder no próximo processo eleitoral.
Frente a essa conjuntura de agressões externas e reações conservadoras internas, o governo Lula tem se mostrado, muitas vezes, silente e contraditório. Sua postura inerte diante das ameaças de Trump aos governos de esquerda da América Latina fragiliza a soberania regional e expõe uma falha estratégica de solidariedade internacional. Além disso, o governo federal concedeu um duro golpe simbólico e concreto ao publicar, em 2025, o Decreto nº 12.600, que incluía os rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização, abrindo caminho para a mercantilização e concessão dessas hidrovias à iniciativa privada, um projeto que favorece empresas monopolistas do agronegócio e ameaça direitos territoriais, modos de vida e o equilíbrio ambiental na Amazônia.
Esse decreto suscitou uma intensa mobilização de povos indígenas e comunidades tradicionais, que ocuparam a sede da multinacional Cargill em Santarém por mais de um mês em defesa dos rios e de seus territórios. Essa luta histórica expressou a resistência popular contra a entrega da Amazônia ao capital privado, impondo ao Estado uma derrota estratégica: o governo federal revogou o Decreto nº 12.600/2025, respondendo à pressão dos povos originários, sobretudo dos povos do Baixo Tapajós, Madeira e Tocantins, que exigiram consulta livre, prévia e informada e a interrupção imediata do projeto de privatização. Destacamos a atuação de Guilherme Boulos e Sônia Guajajara para que o desfecho positivo encontrasse as condições necessárias para a revogação dentro do governo.
No entanto, essa revogação não é vitória isolada, mas reafirma que sem luta popular organizada não há recuo dos interesses do capital e do Estado. Ao mesmo tempo, expõe os limites de um governo que se pretende progressista, mas que, em sua aliança com o grande capital e com o imperialismo global, cede espaço a projetos que contradizem a defesa da soberania nacional e a proteção dos bens comuns. Portanto, frente à ofensiva do capital internacional e dos setores conservadores, defendemos que o Brasil não se submeta a nenhuma forma de imperialismo e que a verdadeira soberania se conquista pela construção de alianças entre os povos da América Latina, pela solidariedade internacionalista e pela defesa intransigente dos direitos sociais, ambientais e democráticos, sem escolher lados nessa guerra entre potências que não representa os interesses das maiorias populares.
No Brasil, como já dito acima, a extrema direita segue dando sinais concretos de que permanece como uma ameaça real à democracia e aos direitos sociais. Pela primeira vez, Flávio Bolsonaro ultrapassa a marca dos 40% nas pesquisas eleitorais, demonstrando capacidade de reorganização política e consolidação de base social. Ao mesmo tempo, esse campo reacionário parece encontrar palanques robustos em dois estados estratégicos para a disputa nacional, Rio de Janeiro e Minas Gerais, o que pode reconfigurar o equilíbrio de forças no próximo período.
Na Bahia, a persistente polarização entre o PT e o carlismo estrutura um cenário que nos desafia politicamente. Essa dinâmica não pode nos empurrar para a subordinação nem para a invisibilidade programática. Ao contrário, impõe ao nosso partido a responsabilidade de afirmar um projeto próprio e de esquerda, mantendo candidaturas ao Governo e ao Senado que expressem um programa combativo, popular e enraizado nas lutas sociais, capaz de dialogar com a diversidade da classe trabalhadora, a juventude, as mulheres e o povo negro baiano, sem abrir mão da autonomia e da independência política frente aos blocos dominantes.
É fundamental manter viva a compreensão crítica e a consciência do povo baiano para derrotar a extrema direita a nível nacional, sendo este o maior desafio da política baiana, em 2026. E essa tarefa precisa ser acompanhada por um balanço honesto, crítico e necessário sobre os 20 anos de governos estaduais liderado pelo PT, embora seja um escudo para o retorno de um projeto das velhas oligarquias e aprofundamento da miséria, implementa políticas nocivas para avanços sociais, econômicos e de garantia da vida do nosso povo. A aliança com parte da direita, estabelece limites para a coalizão, evidenciados, principalmente, nas políticas de segurança pública, educação, meio ambiente e gestão dos serviços públicos, que estão cada dia mais distantes de um projeto popular, que coloque a garantia da vida no centro das prioridades.
O genocídio do povo negro segue em curso na Bahia, materializando-se em um conjunto de políticas públicas, ou na falta delas, que aceleram a mortandade. A juventude negra, que hoje é assassinada nas periferias, nasceram e foram “educadas” pelos governos de coalizão liderados pelo petismo, e por tanto devem ser contados no balanço deste período. Essa política de morte, travestida de política de segurança pública, segue, focada na letalidade, materializada principalmente na ação da Polícia Militar. São 9 anos seguidos em que a Bahia lidera o triste anuário de segurança pública, com a PM que mais mata no Brasil, em números absolutos, mesmo sendo apenas o 4º estado em população. Há um projeto de genocídio em curso que precisa ser interrompido, com urgência! O povo baiano merece e quer viver e com segurança!
A Bahia ocupou os piores índices de educação (IDEB) no Brasil, onde a falta de valorização dos docentes da educação básica e o descaso com as Universidades Estaduais Baianas nas últimas décadas, tornam ineficazes as pequenas sinalizações progressistas na pasta da educação promovida pelo atual governo Jerônimo. Junto a isso, o sucateamento do serviço público, com precarização do trabalho, ausência de concurso e financiamento da parceria privada, indicam as escolhas privatistas dos últimos 20 anos.
Na Bahia, o “PL da Devastação” já está em vigor há 15 anos, por meio da “Licença por Adesão e Compromisso - LAC”. Na prática, quem precisa de licença ambiental, simplesmente declara que cumpre as regras e recebe a licença online. O problema é que o governo fiscaliza só depois e quando faz, e de maneira pontual, por amostragem. Ou seja, muitos impactos só serão descobertos quando for tarde demais.
Os povos e comunidades Indígenas, Quilombolas, de Fundo e Fecho de Pasto e Ribeirinhas são vítimas imediatas desse modelo que entrega terra, territórios e água para o lucro privado, mesmo em plena emergência climática. O Projeto de indicação proposto pelo nosso Deputado Estadual Hilton Coelho, e aprovado por unanimidade na ALBA, já vai completar três anos. Ainda assim, até o momento, nada do Governador Jerônimo decretar a criação da Unidade de Conservação da Serra da Chapadinha. Além disso, o avanço de empresas monopolistas com corredores de energia eólica no topo das serras e com os latifúndios de placa solar na Caatinga, além de insustentáveis, provocam mais conflitos fundiários no Estado.
Essa mesma política se aprofunda na mineração: denunciamos que a mudança na CBPM transforma a empresa pública em operadora direta da exploração, autorizando subsidiárias, parcerias com multinacionais e a financeirização das riquezas minerais. É a socialização dos riscos com recursos públicos e a privatização dos lucros, intensificando a devastação de territórios, águas e modos de vida. Não aceitaremos que comunidades quilombolas, indígenas, de fundo e fecho de pasto sejam sacrificadas em nome do capital: é preciso organizar a resistência e afirmar que a vida e a soberania valem mais que o lucro.
Na Região Metropolitana de Salvador, o Governo do Estado da Bahia vem implementando obras como a ponte Salvador-Itaparica e o BRT (Bus Rapid Transit) que liga o subúrbio às estações do Metrô, cujos projetos estão causando tanto impactos ambientais e sociais, sobretudo em relação às comunidades periféricas, sem que tenham sido ouvidos, de forma eficaz, os movimentos sociais e os principais impactados, a exemplo de povos indígenas, quilombolas, ciganos,comunidades de terreiros e da população LGBTQIAPN+. Por estes motivos, repudiamos a forma com que têm sido realizadas as mencionadas obras estruturantes, sem os devidos cuidados com o meio ambiente e com as populações historicamente vulnerabilizadas.
A Bahia tem sofrido vários desastres nos últimos anos, agravados pelas mudanças climáticas. nos últimos três anos, pelo menos, 15 cidades foram atingidas e declararam estado de emergência devido às fortes chuvas e secas. A injustiça e o racismo ambiental tem causado tragédias sociais e danos na economia, gerando desabrigo das pessoas e mais grave perda de vidas. A prevenção e o planejamento são fundamentais para mitigar os impactos destes desastres.
Além disso, as comunidades quilombolas da Bahia enfrentam dificuldades para garantir seus direitos territoriais e são frequentemente ignoradas em processos de licenciamento ambiental. Isso é um exemplo claro de racismo ambiental, pois essas comunidades são desproporcionalmente afetadas por projetos de desenvolvimento que beneficiam outros grupos
Diante desse cenário, é preciso construir e apontar um projeto alternativo, popular e à esquerda, que rompa com a lógica dos pactos com a velha política oligárquica. Uma vez que o governo está cada vez mais próximo dos setores da direita na Bahia, além da constante ameaça de organização da extrema direita no estado, é necessário e imprescindível uma alternativa eleitoral fortalecida e combativa para a sociedade baiana.
O PSOL Bahia aprovou uma chapa majoritária que representa a esquerda radical e reafirma nossa independência política frente aos blocos dominantes. A pré-candidatura de Ronaldo Mansur ao Governo, com Meire Reis na vice, e as pré-candidaturas de Professora Delliana, Nilo Rosa e Marúsia Fernandes ao Senado expressam o acúmulo militante do partido e o compromisso com um programa anticapitalista, popular e enraizado nas lutas sociais. Nossa tarefa é transformar essa decisão política em força social organizada, forjando uma aliança permanente com os movimentos sociais, ativistas e a intelectualidade orgânica da Bahia.
Com o conjunto das nossas candidaturas, majoritárias e proporcionais,buscaremos aprofundar o diálogo, de forma ampla e participativa, com os setores sociais em luta, para a construção e defesa de um programa que tenha como centro a defesa do povo trabalhador e de suas principais pautas. Buscamos, nas eleições de 2026, apresentar ao povo baiano candidaturas inseridas no movimento social, comprometidas radicalmente com a luta dos e das trabalhadoras, com o combate ao racismo, com a luta das mulheres, das LGBTQIAPN+ e de todos os povos oprimidos, a fim de que estes possam viver em uma Bahia com dignidade plena.
Bahia, 28 de fevereiro de 2025
Diretorio Estadual do Partido Socialismo e Liberdade na Bahia



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